Terça-feira, 28 de Agosto de 2007

Quando, tu e eu....

Quando as pessoas se amam

e se querem amar,

selam um pacto:

Dormir juntas.

E quando se fala em

"dormir juntos"

o sentido tem duplo significado

significa primeiro

amar acordado

em plena vigília da carne,

mas, depois,

na lansidão do pós-gozo,

deixar os corpos lado a lado,

 à deriva,

dormindo,

talvez....

Na verdade,

os amantes,

quando são amantes mesmo,

mesmo enquanto dormem 

amam-se ...

Agora  esses versos de Aragón cantados por Ferat:

"Durante o tempo que você quiser

Nós dormiremos juntos".

E penso.

É um projeto de vida,

dormir juntos, continuamente. -

A mesma ambigüidade:

dormir/amar juntos,

dormir/acordar juntos,

ou então,

dormir/morrer de amor juntos. 

 

Deve ser por causa disto

que os franceses chamam o orgasmo

de

 "pequena morte".

Deve ser por isto

que os amantes

 julgam que poderm continuar

a amar

 mesmo depois da morte,

 como Inês de Castro e D. Pedro,

que foram sepultados um diante do outro,

para que no dia do reencontro

um seja o primeiro que o outro veja. 

Amor:

um projeto de vida,

um projeto de morte.

 Se numa noite dessas,

o vento da insônia soprar nas tuas frestas,

repara no corpo que estiver a dormir

 despojado ao teu lado.

Ver o outro dormir

é coisa de muita responsabilidade.

 Mais que ver as águas de um rio represado

gerando uma usina de sonhos,

é ver uma semente na noite

pedindo um guardião.

 

Pode ser banal, mas é isto:

amar é ser o guardião do sonho alheio.

Os surrealistas diziam:

o poeta enquanto dorme trabalha.

Pois os amantes enquanto dormem,

amam-se.

amam-se  inconscientemente,

quando os seus desejos enlaçam raízes e seivas.

O pé de um

toca o pé do outro,

a mão espalmada corre sobre o lençol

e toca o corpo alheio

 e,

dormindo,

abraçam-se animados.

Quando isso ocorre,

pode ter vários significados.

Talvez um tenha lançado um apelo silencioso ao outro:

"Ajude-me a atravessar esse sonho",

ou:

"Venha, sonhe esse sonho comigo,

é bonito demais".

E o outro, às vezes, sem se mexer,

parte em seu socorro.

É que certos sonhos,

sobretudo os de quem ama,

não cabem num só corpo.

Transbordam os poros da noite e

pedem cumplicidade.

E se há um pesadelo,

aí um agarrarar-se-á ao tronco do outro

na crispação do instante,

e o corpo do parceiro

é bóia na salvação.

Por isto, no ritual do casamento,

quando o sacerdote indaga

se os que se amam sabem

que terão que se socorrer

na saúde e na doença,

na opulência e na miséria etc...

deveria  inserir-se um tópico a mais

e advertir:

... amar é ser cúmplice do sonho alheio.

Passar a metade da vida dormindo ao lado do outro.

Há pessoas que vivem

 25 anos - bodas de prata,

50 anos - bodas de ouro,

75 anos - bodas de diamante - ao lado do outro,

e

não sabem

com que o outro sonha.

E há quem passe

uma tarde,

uma noite

ou uma temporada ao lado

de um corpo

e sabe os seus sonhos para sempre.

Engana-se

quem escuta o silêncio

no quarto dos que amam.

Estranhos rumores percorrem o sonho alheio.

Não é o rugir do tigre pelas brenhas.

Não é o bater das ondas na enseada.

Nem os pássaros perfurando a madrugada.

São os sonhos dos amantes em plena elaboração.

E se numa noite dessas

o vento da insónia

de novo soprar nas tuas frestas,

olha pela janela

os muitos apartamentos

onde pulsam dormindo os amorosos.

Quando se compra um apartamento novo,

nas alturas,

 alguns

compram lunetas

e ficam vasculhando a vida alheia.

Mas para ouvir o ruído dos sonhos

basta abrir os ouvidos na escuridão.

Os sonhos pulsam na madrugada.

Era uma vez um chinês

que toda vez que sonhava com sua amada

acordava perfumado.

Deve ser por isso que,

ainda hoje,

o quarto dos amantes

amanhece com um perfume de almíscar,

lavanda e alfazema.

E é comum achar troféus dos sonhos

ao pé da cama de quem ama.

Quando se abre a pálpebra do dia,

aí pode-se ver

um unicórnio de ouro

e uma coros de rubis.

À noite

os sonhos dos amantes cristalizam-se

e de dia

se liqüefazem em beijos e lágrimas.

Quem ama diz boa-noite

como quem abre/fecha a porta de um jardim.

Não apenas como quem viaja,

mas como quem vai para a colheita.

Quando  ama,

acontece

de um habitar

o sonho do outro,

e

 fecundá-lo.

 

(by: Affonso Romano de Sant'Anna)

 

AMO-TE


publicado por tueum às 22:48
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3 comentários:
De Infiel a 28 de Agosto de 2007 às 23:06
Adorei Esta lindissimo


De Sorrisoduplo a 30 de Agosto de 2007 às 09:16
Escreves sempre com muito amor... continua assim... a amar tanto.

Deixei um desafio no meu blog para ti...

Bjnho


De Segredos!!! a 1 de Setembro de 2007 às 18:18
Gostei do blog...
Posts interessantes..
Passe no meu e comente


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